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22/11/2009

SOBRE A MORTE E O MORRER


O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de
um ser humano? O que e quem a define?


Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...

Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.

Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”

Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...”

Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.

Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?".

Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.

Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.

Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?

Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.

Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".

Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.

Dizem as escrituras sagradas:

"Para tudo há o seu tempo.

Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.


Texto publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12-10-03. fls 3, de um grande escritor brasileiro Rubem Alves: quer conhecer tudo sobre o autor e sua obra em "Biografias".

Estamos temporariamente no quarto do LUTO, cada um em seu tempo exato faz a passagem para a pátria espiritual. Chegou a hora de meu mano partir, nesse momento é simplesmente deixar exaurir a dor da perda. Momento de silenciar e orar.

E a vida continua...


12 comentários:

Julimar Murat disse...

Minha querida amiga
beijos no seu coração.
Julimar

Alma inquieta disse...

Minha amiga Norma!

Que Deus te dê o consolo que necessitas!

Um beijo!

ARBOE disse...

O processo da morte é ainda um mistério que aos poucos vamos desvendando, sutilmente as portas das dimensões se abrem para nós.
Quando nos tiram alguns dos véus descobre-se que para a maioria das coisas que não encontrávamos sentido, há sim, uma causa profunda, um profundo porquê!
Tenho ajudado muitos na hora da partida com o Reiki, a maioria deles se despede de mim e estão sempre bem e me falam de como foi mais tranquilo o processo todo com a passagem da Energia.
É sutil logo não há como provar...é tênue, é ...alma se comunicando com alma..mas sei que disso você entende.
Sei também que a Luz tem nos dado muito neste último milênio pra nos confortar desse corte que é a transição morte.
Sei que um dia, espero que não demore muito, a morte não será mais necessária neste belo planeta azul!
Meu carinho pra você querida!

JPBARROS disse...

Amiga norma

Não há maneira de expressar em palavras a DOR, ainda que esta seja física ou psicológica, cada um tem a capacidade maior ou menor de a suportar, aceitar e lidar com ela.
Ainda que a morte não interrompa a vida, a vida é um bem precioso que devemos aproveitar até ao último instante. Ainda que não estejamos preparados, sabemos que tem que ser assim.

Um abraço

Psiquismo Desmistificado disse...

Minha querida amiga,
A vida é um ciclo, sobre a qual não temos comando de tempo. Mas a vida é aprendizagem a fim de que evoluamos.
Um grande e fraternal abraço
Deus te proteja.

PS: Deixei um selo para ti em meu blog.

Jorge disse...

Norma, doce amiga!

Lidar com a morte talvez não seja tão doloroso quanto o sentimento de perda. Isto sim, dói.

Norma, tenha uma semana bem luminosa!!
Um beijo

Chris disse...

Um texto para meditar, sobre o sentido da vida acima de tudo...
Uma boa semana
Chris

Beth Cerquinho disse...

Norma parabéns pelo blog e pelos post's...se me permite irei segui-la.
Bjka

angela disse...

Norma
Um irmão quando parte, nos parte de dor.
Guarde-o no seu coração e lá ele vivera.
São as dores da vida.
beijos

Vida*** disse...

Essa Dor...a Dor da partida!!! Em quem DÓI...Mais??? Sem explicação!!! Um tufão de borboletas em desatino...sem destino e porto!!!Uma estrela,com desejo de brilhar...em um lugar somente!! Dentro do coração do ser que amamos!!! Seria egoísmo?? Seria,orgulho?? Diga-me!! Qual cartilha e caminho a seguir??Para chegar o mais próximo de quem NÂO desejamos com tda a força de nosso ser!!!Ver Partir!!! Que incoerência...qtas falhas??Qto devemos aprender...para buscar essa LUZ??? Desculpe,estou na evolução...e cheia de DOR em meu coração!!!Que busca na Poesia e filosofia... Uma razão para VIVER !!!

António Rosa disse...

Norma

Este post deu-me muito em que pensar e sentir. Muito obrigado.

Norma Villares disse...

A todos amigas, muito obrigada pela visita e pelos comentários.
Um grande abraço rico de luz e ternura

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